Entrar no carro, ligar a central multimídia e se deparar com um anúncio antes mesmo de iniciar o trajeto pode deixar de ser apenas uma hipótese. Com o avanço dos veículos conectados, a monetização de telas ganha força e já é apontada como tendência, levantando debates sobre experiência do usuário, segurança e direitos do consumidor.

A indústria automotiva vê nas centrais multimídia uma nova fonte de receita, replicando modelos já consolidados em smartphones e smart TVs. No entanto, diferentemente desses dispositivos, o carro envolve mobilidade e segurança, o que amplia o impacto de qualquer mudança.

Mais do que inovação, a possível inserção de publicidade levanta questionamentos sobre alteração de produto, prática abusiva e risco de distração ao volante.

A digitalização dos veículos transformou o carro em uma plataforma, com atualizações remotas e serviços sob demanda. Nesse cenário, a publicidade surge como desdobramento natural, mas sua implementação é decisiva para avaliar a legalidade.

A exibição de anúncios após a compra, sem consentimento, pode ser interpretada como alteração unilateral do produto. A expectativa do consumidor é que funcionalidades essenciais não sejam modificadas sem aviso, especialmente quando afetam a experiência de uso.

O debate envolve o Código de Defesa do Consumidor, sobretudo quanto à transparência. A imposição de publicidade sem opção de recusa pode ser considerada prática abusiva.

Outro ponto crítico é o consentimento. Atualizações que incluam anúncios devem prever controle do usuário. Sem isso, há fragilização da relação de consumo.

Também pesa a questão da segurança. A legislação restringe o uso de telas com conteúdo não relacionado à condução durante o movimento, e a publicidade pode aumentar o risco de distração.

Diante de eventuais prejuízos, o consumidor pode recorrer à concessionária, ao Procon ou à Justiça. A cobrança para remover anúncios pode, inclusive, configurar venda casada.

Com informações de Iago Garcia, do Autoesporte.